segunda-feira, 18 de março de 2013

Pr. Hugo Chavez: Ressocialização e Evangelismo não podem andar separado.

Irmão Rodrigo ganhou sua liberdade depois de alguns anos de reclusão nos presídios do Paraná, suas expectativas eram muitas, ao final ele tinha sido evangelizado e aceitado Jesus Cristo como Senhor de sua vida e agora ele queria trabalhar e ganhar seu sustento de forma honesta.
Por causa do envolvimento desde jovem com o mundo do crime , ele tinha abandonado os estudios e não tinha profissão.
Lamentavelmente, os projetos do irmão Rodrigo não conseguiram se concretizar , sem emprego por falta de profissão ou capacitação profissional e com uma família para sustentar ,voltou a cometer um assalto que o levou-o novamente para o presidio.
Esta é uma das tantas histórias de presidiários reincidentes por falta de oportunidades de uma sociedade cada vez mais exigente.
Durante muitos anos realizamos trabalhos de evangelismo dentro de presidios, como muitas outras pessoas, batizando presidiários, ministrando ceia, acompanhando seus processos nas diferentes varas judiciárias,
orando em seus lares, os ajuntando em diversos encontro de ex-presidiários, porém, sentiamos que algo estava faltando.

Ao meditar na biblia no livro de Thiago capitulo 2 a partir do versiculo 14 eu comprendi que no meu ministério estvava faltando as obras , a fé tinha se manifestado em conversões ,batizmo e uma equipe de quase 150 ex-presidiários, porém, o que nós estavamos oferecendo para eles depois de ganhar a sua liberdade?
Foi quando o Senhor me impulsionou a contribuir também na ressocialização dos detentos ,agora não como pastor e sim como professor.
Apresentamos um projeto, por intermédio do Ministério Público e da Secretária de Justiça do estado do Paraná, que é a administradora do sistema penitenciário, para oferecer aos detentos cursos voluntários de lingua espanhola.

Procuramos a gerência da escola Microcamp (informática e línguas), já que uma das exigências da Secretaria era  a certificação de conclusão dos cursos para a futura remissão da pena dos participantes.
Por lei a cada 12 horas de estudos ,há um dia a menos de pena a cumprir , graças a Deus o senhor Murilo Haddad, gerente de Microcamp(hauer) em Curitiba se prontificou a apoiar o projeto , fornecendo o material didático, como  também assim a certificação final.

Sabemos da importância da língua espanhola para o Brasil em seu relacionamento comercial com os outros países da América, como também para os eventos internacionais ,Copa do mundo de futebol e Jogos Olímpicos
Começamos agora no mês de março duas turmas de vinte alunos cada , uma no presidio masculino,  e outra no presidio feminino provisório, ambas unidades no município de Piraquara, região metropolitana de Curitiba.
O curso não terá custo nenhum para os cofres públicos , ele é totalmente voluntário de nossa parte , e a escola Microcamp entra com o material didático é a certificação.

Damos graças a Deus pela oportunidade de poder evangelizar e agora também ajudar na ressocializaçao dos detentos do complexo penitenciário de Piraquara.
Pedimos a oração do povo de Deus do Brasil como também do exterior que acompanham nosso bloger , para continuar tendo condições físicas e financeiras, a fim de seguir enfrente com nosso ministério , a tarefa é ardua,  não há retorno financeiro , não existe dízimo nem oferta  nos presidios ,porém temos uma meta ;ver vidas transformadas por Deus e capacitadas para voltar ao convívio da sociedade.


ASSIM TAMBÉM A FÉ , SE NÃO TIVER AS OBRAS , É MORTA EM SIM MESMA.
                                                     TIHAGO 2/17

domingo, 17 de março de 2013

ESMA O presidio Argentino onde foram torturados e mortos cinco mil pessoas

É uma experiência de vida num lugar emblemático da ditadura argentina (1976-1983): a Esma, a famosa Escola de Mecânica da Armada, usada como centro de tortura, acolhe, a partir de agora, em sua capela, uma instituição de música popular.
"Estamos exorcizando um lugar onde reinava a morte e a tortura com a música", contou, em entrevista à AFP, o pianista argentino de renome internacional Miguel Angel Estrella.
Sequestrado em 1977 no Uruguai, torturado e libertado em 1980 graças à grande mobilização internacional, ele se disse revigorado em observar a "felicidade" dos jovens de entre 18 e 25 anos, a quem ele acaba de dar uma aula numa das salas da tristemente célebre Escola de Mecânica da Armada (Esma).
"Tocamos jazz, rock, música latino-americana", conta o pianista, explicando que a escola já conta uma centena de alunos de origem muito humilde. "É um curso de três anos totalmente gratuito, que garante a eles uma boa formação".
Este homem, embaixador de boa vontade da Unesco e criador da fundação Música-Esperança, é também engajado politicamente.
É um admirador, na França, da socialista Martine Aubry, a quem conheceu em Lille (norte), durante seu exílio e, na Argentina, da presidente Cristina Kirchner.
Miguel Angel Estrella se disse assombrado ainda hoje por esse lugar de sofrimento. "Quando voltei do exílio, visitei todas as prisões e comunidades onde militei nos anos 70 antes de ser sequestrado", contou.
No novo trabalho, teve o apoio de Mariano Berroeta, 35 anos, que se tornou responsável pela escola de música e é filho de um desaparecido político, torturado na Esma, Enrique Berroeta.
Sala de torturas

"A música pode dar sentido a um lugar onde reinava o horror", disse à AFP Mariano Berroeta. Ele tinha apenas um ano quando seu pai foi preso, em 1977, e levado à Escola de Mecânica da Armada.
Cerca de 20 jovens acompanham, com ele, um curso de Introdução à Música Popular, na antiga capela. Uma placa lembra que, durante a ditadura, os responsáveis pela ermida eram padres "envolvidos no terrorismo de Estado".
"Meu pai foi visto pela última vez, na Esma", disse Mariano Berroeta. Estamos aqui a cem metros das salas de tortura pelas quais passaram cerca de 5.000 pessoas - apenas umas cem conseguiram sair vivas.
Os desaparecidos chamavam as salas de tortura de "Capucha" (capuz) e "Capuchita" porque eram sempre encapuzados, mesmo quando torturados. De tempos em tempos, ouviam-se gritos: uma prisioneira estava em trabalho de parto.
Parentes de desaparecidos

Na maioria das vezes, o bebê era entregue a um militar ou a uma pessoa próxima, enquanto que a mãe era, pouco tempo depois, atirada ao mar, nua e viva, de um avião militar em pleno voo.
A seu lado, o guitarrista Martin Pellizeri, 36 anos, membro do grupo "Budabardop Orquestra" conta que está encantado com a ideia de associar "música e direitos Humanos". "É comovente, disse ele, ver como a música pode encher de vida um lugar que nos traz tantas lembranças más".


Vinde , pois agora , e matemo-lo , e lancemo-lo numa destas covas , e diremos : Uma fera o comeu ; e veremos que será dos seus sonhos. GÊNESIS  37/20

sábado, 16 de março de 2013

Prisão de pastores da Igreja Maranata; verdade ou perseguição ?

O Conselho Regional de Medicina do Espírito Santo (CRM/ES) vai abrir uma sindicância para apurar a conduta do médico e pastor da Igreja Maranata Amadeu Loureiro Lopes. Em depoimento à Polícia Federal, outro pastor da congregação disse ter recebido ameças de Amadeu enquanto se recuperava de uma cirurgia cardíaca, em um hospital da Grande Vitória.
Se a apuração do Conselho constatar infração, um procedimento ético profissional será aberto e poderá resultar em punições para Amadeu Lopes. Elas podem ir de simples advertência até a cassação do registro profissional.
Não houve denúncia formal ao CRM, mas a decisão de abrir a sindicância foi tomada a partir de informações publicados pela imprensa. O advogado de Amadeu Lopes preferiu comentar nada sobre as acusações contra o médico. Ele foi preso preventivamente na última terça-feira durante as invetigações sobre coação a testemunhas do processo que avalia possíveis desvios de dinheiro do dízimo dentro da Igreja Maranata.
130.000 pessoas para festa do 45 aniversário

O pastor que disse ter recebido as ameaças de Amadeu falou à Polícia Federal, em janeiro deste ano. Em depoimento, afirmou que foi coagido a mudar a versão dada nas investigações sobre os desvios. Além de Amadeu, Elson Reis, presidente da igreja, também teria ido ao hospital forçar mudança no posicionamento da testemunha
Outro pastor da Maranata, o advogado Itamar Coelho, também foi preso na última terça sob acusação de ameaçar testemunhas. Procurada, a Ordem dos Advogados do Brasil no Espírito Santo (OAB/ES) informou que só iniciará apurações internas contra o advogado preso se ele for condenado judicialmente. Antes da conclusão dos processos, não tomará nenhuma medida contra Itamar. O médico e o pastor continuavam detidos nesta quinta-feira.
Matéria Maranata - Os detidos: Gedelti, Elson Carlos Itamar e Amadeu Loureiro
Em alguns casos, testemunhas eram levadas a cartórios para desdizer o que haviam dito. Segundo o promotor Paulo Panaro, em recente entrevista à CBN Vitória, há casos documentados de pessoas ligadas à igreja que davam as novas declarações ao oficial do cartório no lugar das vítimas, que apenas assinavam o documento. Essas manobras, segundo o promotor, eram orientadas por advogados.
O material apreendido nas residências e nos escritórios de líderes da Igreja Maranata e na Rádio Maanaim, na última terça-feira, começou a ser analisado nesta quinta-feira. O trabalho está sendo feito pelos promotores do Grupo Especial de Atuação e Combate ao Crime Organizado (Gaeco), junto da Polícia Federal.

O promotor de Justiça Paulo Panaro não quis adiantar informações sobre o que foi encontrado. Os documentos foram apreendidos durante operação realizada pela Polícia Federal, que prendeu quatro pastores que lideravam a Maranata.
Todos eles são acusados de coagir testemunhas para garantir que mudassem depoimentos já prestados à Justiça e que prejudicam líderes da Maranata. Pelo menos 20 pessoas foram ameaçadas, entre elas um promotor e uma juíza.


Bendizei os que vos maldizem , e orai pelos que vós calunian.   LUCAS 6/28

Reformatório Krenak o presidio "Indigena" da ditadura

 Sede do reformatório onde funcionava a sede da Funai na Fazenda
Guarani e onde fi cava a solitária onde os índios
eram confinados -
Em julho, a Comissão Nacional da Verdade – sancionada pela presidenta Dilma Rousseff para investigar violações de direitos humanos cometidas, durante a ditadura militar, por agentes do Estado – anunciou que também irá apurar os crimes contra os índios. “Vamos investigar isso, sim, porque na construção de rodovias há histórias terríveis de violações de direitos indígenas”, afirmou, na ocasião, o diplomata Paulo Sérgio Pinheiro, um dos sete integrantes da Comissão.                    
Mas o massacre de etnias que se opuseram a grandes obras é apenas um dos capítulos dessa história. Tal como outros grupos subjugados nos “porões da ditadura”, os habitantes de aldeias Brasil afora também foram alvo de prisões clandestinas, associadas a denúncias de tortura, desaparecimentos e detenções por motivação política. E que, ao contrário de outros crimes cometidos pelo Estado à época, ainda não foram objeto de nenhum tipo de reparação oficial ou política indenizatória.               
Tais violações de direitos humanos apontam para o município de Resplendor (MG), onde funcionou o Reformatório Agrícola Indígena Krenak, um velho conhecido do pataxó Diógenes Ferreira dos Santos. “Eu não gosto nem de falar, porque ainda me dá ódio”, diz, com o semblante fechado de quem está prestes a tocar em lembranças difíceis. “Mas quando puxa o assunto, meu irmão...” Quando começa, ele fala sem parar. Diógenes era ainda uma criança no dia em que, conforme conta, viu dois policiais se aproximarem da casa onde vivia, na Terra Indígena Caramuru Paraguaçu, encravada em meio às fazendas de cacau da região sul da Bahia. Vieram, diz ele, acionados por um fazendeiro, que reclamava ser o dono daquele local. Para não deixarem dúvidas sobre suas intenções, cravejaram de balas uma árvore próxima. E, logo depois, colocaram fogo na casa onde o pataxó vivia com sua família.  
Exilados de seu território, Diógenes e seus pais viveram por cinco anos trabalhando numa fazenda próxima. Até serem novamente expulsos, no final da década de 1960. “Já que não tínhamos apoio de ninguém, decidimos voltar para o Caramuru”, conta.                 
Lá chegando, não demorou nem 15 dias para novamente apareceram policiais. Dessa vez estavam incumbidos de escoltar Diógenes e seu pai até a cidade. “Ficamos seis dias presos na delegacia de Pau Brasil (BA)”, relembra. “Até que veio a ordem de nos levarem para o reformatório Krenak, que eu nem sabia o que era”.   
O índio pataxó Diógenes Ferreira dos Santos
No Krenak, a cerca de 700 km de sua terra natal, Diógenes, então ainda um adolescente, descreve ter vivido uma rotina de trabalhos forçados, realizados sob o olhar vigilante de policiais militares. “Íamos até um brejo, com água até o joelho, plantar arroz”, revela. Cotidiano interrompido apenas para esporádicos jogos de futebol, organizados pelos guardas e de participação obrigatória, segundo o pataxó. “Meu pai não gostava, nunca tinha jogado bola na vida.  Aquilo era uma humilhação para ele.”        
Ironicamente, mais de 40 anos depois, o Supremo Tribunal Federal (STF) anulou, em maio de 2012, todos os direitos de propriedade dos fazendeiros que, nos dias atuais, ainda ocupavam a Terra Indígena Caramuru Paraguaçu. Sacramentando, portanto, a legitimidade do pleito de Diógenes na querela fundiária que o levou ao cárcere     
Pedagogia da tortura
O reformatório Krenak começou a funcionar em 1969, em uma área localizada dentro do extinto Posto Indígena Guido Marlière. Suas atividades eram comandadas por agentes da Polícia Militar mineira, que, à época, recebeu a incumbência de gerir as terras indígenas daquele estado por meio de um convênio com a recém-criada Fundação Nacional do Índio (Funai).       
Num boletim informativo da Funai de 1972, encontramos uma das poucas menções oficiais a respeito do local, qualificando-o como uma experiência de “reeducação de índios aculturados que transgridem os princípios norteadores da conduta tribal, e cujos próprios chefes, quando não conseguem resguardar a ordem na tribo, socorrem- se da Funai visando restaurar a hierarquia nas suas comunidades”. Osires Teixeira, então senador pela Aliança Renovadora Nacional (Arena) – o partido de sustentação da ditadura –, se pronunciou sobre o tema na tribuna do Senado, afirmando que os índios do Krenak “retornam às suas comunidades com uma nova profissão, com melhores conhecimentos, com melhor saúde e em melhores condições de contribuir com o seu cacique”. 
À época, fora do governo – eram os “anos de chumbo” da ditadura –, também se contam nos dedos as referências à instituição. Em 1972, um enviado especial do Jornal do Brasil chegou a entrar clandestinamente no reformatório, naquela que provavelmente é a única reportagem in loco sobre o tema. Mas sua presença durou poucos minutos – segundo a própria matéria, ele foi expulso sob ameaças da polícia.    
Ex-integrante do Conselho Indigenista Missionário em Minas Gerais (Cimi/ MG), a pedagoga Geralda Chaves Soares conheceu diversos ex-internos do Krenak. Aquilo que ela relata ter ouvido sobre os “métodos reeducacionais” da instituição – que incluíam indígenas açoitados e arrastados por cavalos – sugerem o real motivo por trás de tanto sigilo. “Uma das histórias contadas é a de dois índios urubu-kaápor que, no Krenak, apanharam muito para que confessassem o crime que os levou até lá”, conta ela. “O problema é que eles nem sequer falavam português”.      
Foto atual de morador da Terra Indígena Maxacali
Um dos mais graves exemplos de tortura remete ao indígena Gero Maxacali, ex-morador da Aldeia Água Boa, em Santa Helena de Minas (MG). Levado ao Krenak, conta Geralda, lá ele teria sido literalmente queimado por dentro ao ser obrigado a beber, de forma alternada, leite fervendo e água gelada. Depois disso, com dificuldades para se alimentar, passou a ter sérios problemas de saúde – que, anos depois, o levariam à morte.   
O Brasil de Fato teve acesso a documentos da Funai que desnudam diversos aspectos sobre o cotidiano do presídio indígena. Eles revelam que ao menos 120 indivíduos, pertencentes a 25 etnias dos mais diferentes rincões brasileiros, passaram pela instituição correcional. Pessoas que, via de regra, chegavam a Resplendor a pedido dos chefes de posto local da Funai. Mas também, em alguns casos, por ordem direta de altos escalões em Brasília.          
É o caso, por exemplo, de um índio canela, do Maranhão, encaminhado à instituição em julho de 1969. “Além do tradicional comportamento inquieto da etnia – andarilhos contumazes –, o referido é dado ao vício da embriaguez, quando se torna agressivo e por vezes perigoso. Como representa um péssimo exemplo para a sua comunidade, achamos por bem confiá-lo a um período de recuperação na Colônia de Krenak”, atesta ofício emitido pelo diretor do Departamento de Assistência da Funai.              
Homicídios, roubos e o consumo de álcool nas aldeias – na época reprimido com mão de ferro pela Funai – estão entre os principais motivos alegados para o envio de índios a temporadas corretivas. Além disso, também transparecem na burocracia oficial situações de brigas internas, uso de drogas, prostituição, conflitos com servidores públicos e indivíduos penalizados por atos descritos como vadiagem. 
Boa parte desses supostos roubos, conforme revelam os próprios ofícios internos da Funai, remetem a atos de periculosidade risível, para dizer o mínimo. Gente como, por exemplo, um maxacali flagrado afanando uma cigarreira, três camisas de tergal, uma caixa de botões e alguns outros cacarecos na sede do seu posto indígena. Ou, ainda, o xerente que, após beber em uma “festa de civilizados”, voltou à aldeia pedalando a bicicleta de outra pessoa, tendo esquecido a sua própria para trás – engano provocado pela embriaguez segundo o próprio servidor local que solicitou a sua remoção.
 Imagens atuais do espaço onde funcionava a solitária
As estadias no reformatório podiam durar de poucos dias a até mais de três anos. Para serem libertados, os internos dependiam da avaliação comportamental dos policiais custodiantes, mas também de certa dose de sorte para não se tornarem “índios extraviados” na confusa burocracia da Funai. “Não sabemos a causa real que motivou o seu encaminhamento, uma vez que não recebemos o relatório de origem”, escreveu aos seus superiores o cabo da PM Antônio Vicente, um dos responsáveis locais, sobre um índio xavante, considerado de bom comportamento, que lá estava há mais de cinco meses.          
Nesse balaio de gatos, alguns casos soam quase surrealistas. Um deles ocorreu em 1971, quando chegou ao reformatório um índio urubu-kaápor, com ordens de permanecer sob severa vigilância e em alojamento isolado. Seu encaminhamento a um “período de recuperação” justificava-se, segundo a Ajudância Minas-Bahia – órgão da Funai ao qual estava subordinado o reformatório – por ele ter praticado “atos de pederastia” em sua aldeia. 
Dois meses depois, consta nos documentos do órgão indigenista que ele se apoderou de uma Gilette para tentar suicídio com um corte no abdômen. Recebeu atendimento médico e, após alguns meses, tentou uma fuga, sendo recapturado já em outro município.          
Entre os internos, havia também pessoas aparentemente acometidas de transtornos mentais, vivendo no Krenak sem qualquer tipo de amparo psiquiátrico. A exemplo de um índio da etnia campa, clinicamente diagnosticado como esquizofrênico segundo relatório do próprio órgão indigenista. E que, entre outras excentricidades, dizia possuir vários automóveis e aviões, além de ser amigo íntimo do mandatário supremo da nação. “Sempre que um avião passa sobre esse reformatório ele pula e grita, dizendo que é o presidente vindo busca-lo”, relata um ofício a seu respeito.              
 Ocrides Krenak: preso pelo consumo de cachaça
Para alguns dos indígenas, a ida ao Krenak provou-se um caminho sem retorno. É o caso de Manoel Vieira das Graças, o Manelão Pankararú, levado ao presídio indígena em 1969 após uma briga violenta com outros índios de sua aldeia. Com mulher e filhos, Manelão está até hoje instalado em Resplendor. Tal como outros índios que, desativado o reformatório, permaneceram na região por conta de amizades e casamentos oriundos dos anos de cárcere – havia também mulheres entre os prisioneiros.     
Atualmente, ele faz planos para revisitar a aldeia onde nasceu pela primeira vez desde que saiu preso da Terra Indígena Pankararú, no sertão pernambucano. “Eu me arrepio só de lembrar das nossas danças, das brincadeiras e do Toré (ritual típico da etnia)”, confidencia, saudoso e emocionado. Sua casa atual fica a poucos quilômetros da antiga sede do Krenak, às margens do rio Doce, onde ainda existem as ruínas de concreto e aço da sede da instituição, parcialmente derrubadas por duas cheias no rio. Quando vier a próxima enchente, acreditam alguns moradores da região, devem também vir abaixo as últimas paredes que insistem em ficar de pé.         
Entre os que não retornaram há também aqueles cujo destino, ainda hoje, permanece uma incógnita. Situação que remete, por exemplo, a Dedé Baena, ex-morador do Posto Indígena Caramuru, na Bahia. “Ninguém sabe se é vivo ou morto porque foi mudado para o presídio Krenak e desapareceu”, revela um não-índio, nascido na área do referido Posto Indígena, em depoimento de 2004 à pesquisadora Jurema Machado de Andrade Souza. Outros relatos atuais de indígenas da região confirmam o sumiço.     
Em agosto de 1969, conforme está registrado em um ofício da Funai, Dedé foi levado a Resplendor a pedido do chefe do Posto em questão, que o qualificou como um “índio problema”, violento quando embriagado e dono de vasto histórico de agressões a “civilizados”. Lá chegou inclusive necessitando de cuidados médicos, com uma agulha de costura fincada na perna – ferimento ocorrido em circunstâncias não explicadas.        
Nos documentos aos quais teve acesso, o Brasil de Fato não encontrou registros de sua eventual libertação, morte ou mesmo fuga.         
“Índios vadios”
Paralelamente à chegada dos “delinquentes”, dezenas de índios krenaks ainda habitavam áreas vizinhas ao reformatório. Estavam submetidos à tutela dos mesmos policiais responsáveis pela instituição correcional, o que os tornava um alvo preferencial para ações de patrulhamento. Diversos deles acabaram confinados.           
Homens e mulheres krenaks foram também recrutados para trabalhar na prisão indígena, e dão testemunho sobre as violências desse período. “Quem fugia da cadeia sofria na mão deles”, afirma Maria Sônia Krenak, ex-cozinheira no local. “E a mesma coisa as crianças da aldeia. Se fugissem da escola, também apanhavam”. 
Por mais incrível que pareça, até mesmo a vida amorosa dos índios locais passava pelo crivo da polícia. “Antes de responder ao ‘pedido de casamento’, procedi (sic) uma sindicância sigilosa e sumária na vida pregressa do pretendente, apurando-se que é pessoa pobre, porém honesta”, aponta ofício escrito pelo sargento da PM Tarcisio Rodrigues, então chefe do Posto Indígena, pedindo aos seus superiores deliberação sobre o noivado de uma índia com um não índio dos arredores.             
Na Terra Indígena Krenak, homologada em 2001 em Resplendor, muitos ainda tem histórias para contar sobre esse período. “Eu, uma vez, fiquei 17 dias preso porque atravessei o rio sem ordem, e fui jogar uma sinuquinha na cidade”, rememora José Alfredo de Oliveira, patriarca de uma das famílias locais. É um exemplo típico do que, para a polícia, era considerado um ato de vadiagem.   
Assim como ocorria em outras regiões do país, os krenaks só podiam deixar o território tribal mediante a autorização do chefe local da Funai. Até mesmo a caça e a pesca fora dos postos indígenas – frequentemente inadequados para prover a alimentação básica – podiam, à época, levar índios Brasil afora diretamente ao reformatório.      
Para Geralda, ex-Cimi, por trás de situações como essas – de sedentarismo forçado, prisões de “índios vadios” e até mesmo de supostos ladrões – havia, na verdade, um contexto de conflito territorial. “Por exemplo, os maxacalis (habitantes do Vale do Mucuri, no nordeste de Minas Gerais). Nessa época eles atacavam as fazendas de gado. Estavam confinados num posto indígena, passando fome, então caçar uma vaca era uma atividade de caçador mesmo. E aí prendiam o índio porque ele tinha roubado uma vaca”, contextualiza. “Mas, de fato, era uma questão de sobrevivência, e também de resistência. Achavam que, pressionando os fazendeiros, eles iriam embora. A compreensão maior de que a luta pela terra tem esse viés da Justiça só veio depois.”       
No início dos anos de 1970, até mesmo a área ocupada pelos krenaks e pelo reformatório vivia dias de intensa disputa, reivindicada por posseiros que arrendaram lotes nos arredores. Como saída para o imbróglio, o governo de Minas Gerais e a Funai negociaram uma permuta entre tais terras e a Fazenda Guarani, área localizada em Carmésia (MG) e que pertencia à Polícia Militar mineira. Em 1972, foram todos – os krenaks, o reformatório e os confinados – deslocados para lá. 
Logo após essa mudança, mudou também o chefe da Ajudância Minas- Bahia. Quem o assumiu foi o juruna João Geraldo Itatuitim Ruas, um dos primeiros servidores de origem indígena a ocupar postos de comando na Funai. “Imagina o que era para mim, como índio, ouvir a ordem do dia do cabo Vicente, botando todos os presidiários em fila indiana, antes de tomarem um café corrido, e falando que seria metido o cacete em quem andasse errado. E que, para aquele que fugisse, havia quatro cachorros policiais, treinados e farejadores, prontos para agir”, exemplifica. “Eles não trabalhavam no sábado, que era dia de lavar a roupa, costurar, essas coisas todas. Mas, durante a semana, era trabalho escravo!”         
Frente a essa realidade, Ruas afirma ter procurado o ministro do Interior – Maurício Rangel Reis, morto em 1986 – para discutir o fim da instituição correcional. Um encontro do qual diz ter saído sob ameaças de demissão. Mesmo assim, ele conta ter começado a enviar, de volta às aldeias de origem, diversos dos confinados. Ruas perdeu seu cargo pouco tempo depois.  
Mas enquanto alguns saíam, a Fazenda Guarani ainda recebia, em meados da década de 1970, outras levas indígenas fruto de litigâncias fundiárias no Brasil. Foi o que ocorreu com os guaranis da Aldeia Tekoá Porã, em Aracruz (ES).           
Os guaranis, explica o cacique Werá Kwaray – que passou parte da sua adolescência em Carmésia –, caminham pelo mundo seguindo revelações. E foi uma revelação que levou o seu grupo a sair do sul do país, na década de 1940, em busca da “terra sem males” – local onde, segundo as crenças da etnia, é possível alcançar uma espécie de perfeição mística, algo como um paraíso na terra. Liderados por uma xamã, chegaram a Aracruz duas décadas depois. Mas sobre aquele lugar também repousavam planos para viabilizar enormes plantações de eucalipto, um choque de interesses levou os indígenas, sob pressão e a contragosto, para a Fazenda Guarani. “Foi uma violação dos direitos sagrados dos nossos líderes religiosos”, expõe o cacique. 
Depois de alguns anos em Carmésia, os guaranis retornaram a Aracruz, onde, em 1983, conseguiram a homologação da área indígena que habitam até hoje.                
 A virada dos anos de 1970 para os anos de 1980 marca as últimas denúncias sobre o uso da Fazenda Guarani como local de prisão, confinamento ou despejo de índios “sem terra”. Todos foram embora do local, à exceção de um grupo pataxó que lá se instalou definitivamente após sair de áreas em Porto Seguro (BA). Atualmente, o casarão que servia como sede aos destacamentos policiais foi convertido em moradia para alguns desses indígenas. E a antiga solitária local virou um depósito onde se empilham os cachos de banana abundantemente colhidos nas redondezas.


O senhor e justo no meio dela ; ele não comete iniquidade ; cada manhã trazo o seu juizo á luz ; nunca  falta  ; mas o perverso não conhece a vergonha.   SOFONIAS 3/5 

Perfil genético para identificação criminal.

No dia 28 de maio de 2012, a presidenta da República sancionou a Lei 12.654 que prevê a coleta de perfil genético como forma de identificação criminal, alterando, para tanto, as Leis nos 12.037, Lei de Identificação Criminal e Lei 7.210, Lei de Execução Penal.  O novo texto legal, além de autorizar a coleta de material genético, disciplina o funcionamento dos Biobancos, local nos quais as amostras ficarão armazenadas, realçando o sigilo sobre os dados depositados e as consequências para sua violação.  Prevê, ademais, as situações nas quais será possível colher de ADN dos suspeitos e condenados.

A redação empregada pelo legislador amortece a magnitude das questões que são ínsitas ao uso da técnica já que preferiu referir-se à alteração de artigos de outras leis, dentre as quais a que permite a identificação criminal dos que são civilmente identificados, ao enfrentamento direto do tema, dispondo, explicitamente, sobre a possibilidade de realização deste procedimento no sistema criminal brasileiro.  Com isto, quis superar, talvez, polêmicas sobre o assunto uma vez que o uso de ADN ainda enfrenta muitas resistências, das quais algumas ainda merecem acolhida.

É bem verdade que certos receios dizem respeito ao desconhecimento da técnica, o que inclui a idéia de que o material genético armazenado contenha dados que revelem aspectos somáticos ou comportamentais das pessoas. Em vista da dimensão que vêm ganhando a neurocriminologia e a neurogenética, teme-se que o ADN recolhido possa ser utilizado com o fim de estabelecer novas correlações entre crime e estrutura genética, criando vínculos entre etnia, sexo e outros dados físicos e desvios comportamentais. Ocorre, todavia que a parte do ADN usada para obter a impressão genética é considerada imprestável para qualquer outro fim, por isto considerada não-codificante já que não traz informação alguma sobre uma pessoa além daquela necessária para a identificação humana. Os marcadores selecionados são os microssatélites (STRs, short tandem repeats), exatamente em razão de sua propriedade, isto é, de conterem formas (alelos) variáveis, que mudam de um para outro indivíduo. A análise dessas formas e de sua frequência entre as amostras permite a identificação genética. À luz dessa informação, pretende-se ter superado as objeções sobre o uso de ADN na prática criminal forense embora alguns cientistas tenham posições divergentes quanto à neutralidade dos marcadores.

É importante, de logo, observar que os microssatelites são extraídos de amostras de tecidos ou de secreções que contêm informações que podem afetar a intimidade da pessoa. É essencial, portanto que sejam previstos o descarte deste material e a forma como ele será feito com o objetivo de impedir seu uso posterior, por terceiros, para fins diversos daqueles autorizados ou impostos pela Lei. Não existe, todavia qualquer previsão nesse sentido, ao contrário do que faz a Lei 11.105, a respeito do descarte de organismos geneticamente modificados que constitui crime se feito em desacordo com orientação da CTNBIO.

O ponto central das incertezas e dificuldades na análise da Lei, no entanto, diz respeito ao fato de entender-se ou não o fornecimento de material genético como uma forma de identificação genética.

Se as amostras retiradas constituírem meio de prova, como tudo indica que o seja, estar-se-á, então, diante de uma franca violação do princípio inscrito no inciso LXVIII, artigo 5 º da Constituição Federal que assegura o direito ao silêncio. Em respeito ao nemu tenetur se detegere, que literalmente, significa que ninguém é obrigado a se descobrir, ou melhor, ninguém tem o dever de produzir prova em seu desfavor, os tribunais brasileiros têm recusado o fornecimento de qualquer outro material capaz de possibilitar a identificação de um suspeito. Assim, tem ocorrido com padrões gráficos e também com padrões vocais solicitados para efeito de prova pericial que foram negados pelo supremo Tribunal Federal, entendo-se que era direito dos acusados a recusa em fornecer material para exame que poderia lhes ser desfavorável.

No que tange ao direito a permanecer calado, o STF entendeu que ele poderia ser arguido por qualquer pessoa que prestasse depoimento, em qualquer das esferas do poder público. Com isto, tornou-se costumeiro presenciar, nas CPI´s, depoentes convocados para prestar depoimentos que permanecem calados, frustrando qualquer  expectativa de esclarecimento por esta via. Esta interpretação ampliativa, que estendeu a outros espaços o direito ao silêncio, além daquele no qual se desenrola o processo penal, fortaleceu, no país, sua autoridade.

Em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência.  COLOSSEENSES  2/3