sexta-feira, 20 de julho de 2012

O menor infrator e o descaso social

O caminho que leva à marginalidade não é traçado por uma categoria particular de crianças e adolescentes, mas sim por todo um conjunto de problemas sociais.

Por Maura Roberti
"Crianças Ladronas", este é o título que dá início ao livro "Capitães da Areia", do Mestre da narrativa baseada em temas regionais.

A realidade social e cultural da Bahia, levou Jorge Amado a coletar, neste título, algumas reportagens publicadas em jornais daquele Estado, as quais serviram de alicerce para o livro acima mencionado.

Sua obra, das mais significativas da moderna ficção brasileira, tem como fundamento o quadro regional, mostra na paisagem do sul da Bahia o drama da infância abandonada, bem como os conflitos e injustiças sociais ligados aos desequilíbrios econômicos. O caótico quadro por ele traçado nos idos de 1937, infelizmente não mudou, mesmo no início de milênio.

Este tema é objeto de numerosas análises sociológicas, que nos trazem informações no sentido de que o caminho que leva à marginalidade não é traçado por uma categoria particular de crianças e adolescentes, mas sim por todo um conjunto de problemas estreitamente relacionados com condições de habitação subumanas, crises entre os pais, um sentimento generalizado de alienação e de isolamento no seio da família, na escola, e, acima de tudo, pela discriminação feita pelas pessoas do seu meio que representam a sociedade dita "normal".

Na realidade, centenas de milhares de crianças e adolescentes rebelam-se contra as "pessoas respeitáveis" somente por decepção, porque os adultos não souberam dar-lhes a imagem de uma comunidade humana onde eles tivessem seu lugar, à qual gostariam de se integrar, onde encontrassem compreensão, segurança e calor.

Na maioria das vezes as crianças refugiam-se na marginalidade, em conseqüência do fracasso da geração dos seus pais, fugindo, desta forma, das opressões de todos os gêneros, protegendo-se da despersonalização em que a sociedade os obriga a se amoldar.

Como resposta à irresponsabilidade e desumanidade da sociedade, que tem seus interesses voltados para o desenvolvimento e ignora as vítimas de uma política que não leva em conta o social e, sobretudo, a criança, esta reunindo-se em bandos, tenta criar, clandestinamente, um mundo irreal que responda às suas necessidades mais profundas.

Sem dúvida, o mundo já deveria ter eliminado as inúmeras formas de violações a que as crianças são submetidas, impedindo assim que estas se transformem na escória da sociedade. Mas isso ainda não aconteceu.

Quando assistimos a algum programa de televisão sobre violência, é inevitável que a referência principal seja a roubos a mão armada, assassinatos e estupros, muitos deles praticados por menores infratores. Mas, todas as reportagens referem-se aos atos dos indivíduos isolados que amedrontam os membros da comunidade e suas famílias. Diante disso, a sociedade se sente incomodada e atenta, pois estão em risco a propriedade, a segurança e o bem-estar. Então clama por aparato policial, segurança nas ruas e repressão ao marginal.

Porém, sem considerar o fato do aumento real desse tipo de criminalidade, é preciso abordar o fenômeno da violência a partir de uma visão mais abrangente, pois nem sempre as piores formas de violência são, de fato, estampadas nas telas da televisão.

Toda vez que deixamos de fazer determinadas ações cujo cumprimento seria necessário para evitar sofrimentos, estamos diante da violência passiva. Ninguém exige providências efetivas do Estado para que cesse de alimentar, com o descaso e a inoperância, o celeiro que armazena o número crescente de brasileiros miseráveis em todos os sentidos.

Na raiz desses problemas encontramos a violência da desigualdade social decorrente da injusta repartição das tarefas e dos privilégios que levam ao irregular aproveitamento dos bens produzidos pela comunidade. O fato de crianças permanecerem fora dos bancos escolares, cerceadas de direitos que lhe são inerentes e constitucionalmente consagrados, também configura uma violência que não está disseminada nas telas da televisão, sendo certo que esta forma de violência é tão cruel e abominável quanto à violência sangrenta.

Acima de tudo temos uma espécie de violência que ninguém se atreve a questionar que é a violência institucional. O Estado, como sociedade politicamente organizada, preocupado em não deixar nenhuma sombra, por menor que seja, sobre a ordem estabelecida, imputa, sistematicamente, os problemas sociais aos próprios infratores que ele deixa ao desalento e, por isso, inadaptados.

O imenso número de crianças abandonadas ou carentes, leva a distorções difíceis de reverter. Como passam a ser infratoras, são recolhidas às instituições, onde, além de serem submetidas a maus-tratos, se aperfeiçoam nas "artes" do crime.

A violência tende a progredir em sociedades cujos homens permanecem pouco criativos, que perderam o sentido da existência e a esperança em dias melhores. A violência também se expande onde não existe cidadania.

Para Sartre, insígne dramaturgo e filósofo francês, imbuído de ensinamentos filosóficos afirma que "o homem é responsável por aquilo que é. Assim, o primeiro esforço do existencialismo é o de por todo homem no domínio do que ele é e de lhe atribuir a total responsabilidade da sua existência. E, quando dizemos que o homem é responsável por si próprio, não queremos dizer que o homem é responsável por sua restrita individualidade, mas que é responsável por todos os homens" .

A indiferença dos políticos, muitas vezes pressionados pela opinião pública, vem a caracterizar uma tendência generalizada a recalcar, a não querer pensar no problema existente.

Plageando Marc Ancel  , ao mencionar Prins, podemos afirmar que é imprescindível "uma maior proteção dos pobres, dos humildes e dos indigentes que a Sociedade atual deixa indefesos, abandonando-os aos criminosos impedernidos, quando não os predispõe para que eles próprios se tornem criminosos".

Analisar a marginalidade infantil sob a ótica dos direitos da criança, não apenas oferece novos caminhos para a compreensão do problema do menor infrator, mas também agrega uma nova energia e um novo direcionamento ao movimento em favor de sua diminuição.

Não é possível formar cidadãos, nem falar em direitos humanos sem antes atentarmos para o universo imenso de pessoas que hoje estão destituídas até mesmo dos direitos básicos de humanidade.

O que verificamos hodiernamente é que atacam-se os efeitos e não as causas. A problemática do menor infrator merece uma reflexão profunda sobre diversos conceitos humanísticos que servem de base à aspirações do homem na construção de um mundo melhor.

Amparar a família brasileira, a partir da mais pobre, socorrendo, em primeiro, aquelas desunidas e desintegradas e procurando trazer ao seu seio os filhos menores distribuídos pelas ruas certamente é uma solução, não utópica, para combatermos a causa provocadora do menor infrator.

Ante a impossibilidade de manter-se o menor no seio da família, ainda que em entidades destinadas a agasalhar menores abandonados, um casal "substitutivo" de seus pais deve existir nesta instituição. A desorientação surge por não ter-se parâmetro de um ideal. O menor sozinho, sem dúvida nenhuma fica desorientado iniciando, desta forma, um lamentável processo de marginalização, pelo abandono.

Renato Talli [3], abordando o problema da infância desvalida e do menor carente, faz menção a uma frase com a qual faço questão de encerrar este trabalho, visto que ela representa, em poucas palavras, a forma como podemos alcançar uma sociedade ideal. Diz esse notável Desembargador que "Todos nós somos um pouco culpados" - referindo-se a iníqua desigualdade de tratamento dado ao menor desamparado - "O passado é irrecuperável, o presente é que vale e o futuro será o que tivermos a coragem e o destemor de fazer hoje sem procrastinações."

GESE TRABALHO COM MENORES INFRATORES
MENORESS INFRATORES TERRA FERTIL PARA SEMEAR A PALAVRA



Pastor Hugo e sua esposa Denise



LEMBRA-TE também do teu Criador nos dias da tua mocidade, antes que venham os maus dias, e cheguem os anos dos quais venhas a dizer: Não tenho neles contentamento;ECLESIASTES 12:1










GESE: Realiza evangelismo em educandarios pois acredita na recuperação dos menores infratores.
Orem por esse trabalho.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

MILAGRE!!!! ALGUNS POLITICOS TAMBEM FORAM PRESOS

Paulo Maluf ex prefeito de São Paulo


Relembre os políticos brasileiros que já foram presos

Um dos casos mais rumorosos foi o do ex-prefeito e ex-governador de São Paulo, Paulo Maluf (PP). Alvo de denúncias  desde a década de 70, Maluf foi avisado da prisão em sua mansão na estância de Campos do Jordão (SP) e chegou à superintendência da Polícia Federal em São Paulo no início da madrugada do dia 10 de setembro de 2005, uma sexta-feira. Seu filho, Flávio Maluf, chegou na manhã seguinte, em um helicóptero da PF, algemado. Naquela madrugada, algumas pessoas chegaram a abrir garrafas de champanhe em frente à PF para comemorar a prisão.
Na véspera a juíza federal Sílvia Maria Rocha havia decretado a prisão preventiva de ambos por uma suposta tentativa de manipular o depoimento do doleiro Vivaldo Alves, suspeito de movimentar US$ 161 milhões do ex-prefeito nos EUA. Eles passaram mais de um mês na cadeia ao lado de traficantes internacionais e outros criminosos e só deixaram a carceragem da PF no dia 20 de outubro com um habeas-corpus do Supremo Tribunal Federal.
Outro ex-governador que foi parar atrás das grades é Jader Barbalho, hoje deputado pelo PMDB do Pará. Jader foi preso em Belém no dia 16 de fevereiro de 2002 e levado algemado para a superintendência da PF em Palmas (TO), onde passou exatas 16 horas preso antes de ser liberado pelo Tribunal Regional Federal. O motivo da prisão foi uma ordem da Justiça Federal de Tocantins, onde Jader era alvo de inquérito por desvio de verbas da extinta Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), entre elas a destinação de verbas públicas para o ranário de sua mulher, Márcia Centeno.
Em 2008, o ex-prefeito de São Paulo, Celso Pitta, foi preso de pijama em sua casa em São Paulo por supostamente ter se beneficiado de um esquema de doleiros investigado pela operação Satiagraha. Pitta, que morreu em novembro do ano passado, foi flagrado em escutas telefônicas pedindo dinheiro ao mega-investidor Naji Nahas.
Em julho de 2000 o ex-senador Luiz Estevão passou uma noite na carceragem da Polícia Federal em Brasília. Seria a primeira de uma série de prisões em um escândalo do qual José Roberto Arruda, então líder do PSDB no Senado, foi coadjuvante. No dia 13 de março de 2001 Estevão voltou a ser preso por suposta participação no esquema de desvio de verbas do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo. Ele ocupou uma cela no subsolo da delegacia da PF no bairro de Higienópolis, em São Paulo, ao lado do juiz Nicolau dos Santos Neto, também acusado de desvios no TRT. O mesmo calabouço foi ocupado por um mês pelo então dirigente sindical Luiz Inácio da Silva em 1980, ainda durante a ditadura militar, quando Lula e outros dirigentes sindicais foram enquadrados na Lei de Segurança Nacional, um dos principais instrumentos legais da repressão.
Estevão foi solto três dias depois. O escândalo do TRT levou Arruda a renunciar a seu mandato de senador em 2001. Ele era suspeito, junto com o ex-senador Antonio Carlos Magalhães, de violar o painel do Senado na votação sigilosa que levou à cassação de Estevão. Em 2006 o ex-senador voltou a passar algumas horas detido durante uma audiência no Tribunal Regional Federal da 3ª Região.
Tanto Estevão quanto Maluf, Jader e Pitta foram alvos de prisões provisórias e não chegaram a cumprir pena por condenações na Justiça.
Ao contrário deles, o ex-coronel da Polícia Militar do Acre e ex-deputado federal pelo PFL Hildebrando Pascoal está na cadeia desde o dia 22 de setembro de 1999. Suas condenações somam mais de 100 anos. O caso de Hildebrando assombrou o país quando a CPI do Narcotráfico revelou sua participação direta em assassinatos, grupos de extermínio e narcotráfico no Acre. Entre outras, Hildebrando teria participado da morte de Agílson dos Santos, o Baiano, seu motorista. Antes de morrer Baiano foi submetido a uma sessão de tortura, teve os olhos perfurados e o pênis decepado. Depois de morto, seus braços e pernas foram cortados com uma motosserra.
Jose Roberto Arruda ex-governador do DF

 

PROJETO INÉDITO PRESIDIO EXCLUSIVO DE PRESOS EVANGELICOS



Fé faz milagres na única prisão evangélica da América Latina

A aglomeração e a violência que caracterizam as prisões da Argentina são só uma lembrança negativa para os 253 internos da única prisão exclusiva para evangélicos da América Latina.

A experiência, que começou a ser testada em 2002, foi tão bem sucedida que 3 mil detentos de outras prisões do país pediram transferência para a "Cristo é a única esperança", como os presos chamam a Unidade 25 do Serviço Penitenciário de Buenos Aires.

"Isto é um centro de reabilitação cristão-evangélico", explicou José Córdoba, um preso que se apresenta como "pastor e líder espiritual" do presídio localizado em Lisandro Olmos, a 60 quilômetros de Buenos Aires.

Segundo Córdoba, a iniciativa surgiu diante da crescente quantidade de presos evangélicos no país, onde a maioria das prisões conta com pelo menos um pavilhão destinado a internos que professam essa religião.

Os internos se ocupam da limpeza dos três andares do presídio evangélico, onde não se permite fumar nem consumir drogas ou álcool, e não são divididos pelo crime que cometeram, como acontece nas outras prisões.

Embora a religião ocupe um espaço preponderante na vida cotidiana dos presos, eles podem trabalhar, estudar e praticar esportes, contando para isso com biblioteca, carpintaria, uma oficina de montagem de bicicletas e um campo de futebol, entre outras instalações.

Os pastores evangélicos supervisionam se os presos oram, lêem a Bíblia e participam das orações, das vigílias e dos cultos que acontecem diariamente na penitenciária.

Os recém-chegados à Unidade 25 devem passar por um mês de adaptação, e quem tentar implantar coisas diferentes vai embora, segundo adverte Córdoba, antes de esclarecer que há presidiários perigosos que não tiveram qualquer problema de convivência no presídio.

Numa prisão de Buenos Aires, misturado entre os presos, está um dos "Doze Apóstolos", como é conhecido um grupo de delinqüentes que em 1996 liderou um violento motim que resultou em mortes e tomada de reféns.
Fonte: Agência de notícias EFE

E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.
 

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Presídio Aníbal Bruno, no Recife, é pior penitenciária do Brasil, diz CNJ





Com três vezes mais detentos que a capacidade, o presídio Aníbal Bruno, no Recife, está sendo considerado pelo CNJ (Conselho Nacional de Justiça) a pior penitenciária do Brasil.

O local abriga hoje 4.493 presos, mas tem vaga para apenas 1.448 homens. Devido à falta de espaço, os reeducandos passam a maior parte do tempo soltos pelos corredores e pelo pátio.
A desorganização é tamanha, que alguns detentos construíram barracões de madeira na área externa que hoje servem de celas. Dentro do presídio também há comércio de frutas, cigarros e outros produtos.
Segundo o juiz Éder Jorge, um dos coordenadores do mutirão carcerário do CNJ, os detentos precisam revezar para dormir porque não há espaço para todos. “Se enfileirarmos todos os reeducandos em pé dentro das celas, não se consegue fechar as grades”, disse Jorge.
Devido aos graves problemas constatados, o magistrado classificou o Aníbal Bruno como o “pior presídio do Brasil” e comparou a situação atual do presídio com a antiga Casa de Detenção de São Paulo, o extinto Carandiru [desativado e demolido parcialmente em 2002].
O juiz disse ainda que o Aníbal Bruno conta com apenas cinco agentes por plantão para vigiar os mais de 4.000 presos. “A situação do Aníbal é de total descontrole. O presídio ainda utiliza alguns reeducandos para tomar conta das chaves das celas. Isso não pode existir”, afirmou o juiz.

Sem água potável nem médico

Mas os problemas no Aníbal Bruno não se resumem à falta de espaço. O CNJ constatou ainda condições insalubres dos detentos, como a falta de água potável – os presos bebem água diretamente da torneira – e falta de atendimento médico. “Recebemos também denúncias de torturas”, informou Jorge.
“O Aníbal é o maior presídio da América Latina em número de reeducandos presos. São quase 5.000 presos num espaço para 1.400. Somente o Carandiru superaria esses números. É lamentável o Estado de Pernambuco ainda ter um presídio com essa classificação”, afirmou o juiz.
Segundo o magistrado, o prédio do Aníbal Bruno precisa urgentemente passar por uma reforma e ampliação para abrigar os reeducandos. “Quando entramos no Aníbal, logo na entrada dá para sentir o odor fétido e o calor. Os presos vivem em condições desumanas, sem higiene, sem programas de inserção social.”

Mais vagas

Em nota encaminhada ao UOL Notícias, o secretário de Ressocialização de Pernambuco, coronel Romero Ribeiro, afirmou que o Aníbal Bruno já está sendo reformado e vai se transformar num complexo penitenciário com três unidades distintas que terão administração, enfermaria, escola e refeitório próprios. A obra vai custar R$ 25 milhões e tem a previsão de ser concluída até o final deste ano.
Além dessas ações, o governo do Estado ressaltou que vai criar 6.500 vagas no sistema penitenciário até 2014. “O Centro Integrado de Ressocialização (CIR), que está em construção, vai abrigar 3.126 reeducandos dos sistemas semiaberto e fechado. Ele deverá ficar pronto no primeiro trimestre de 2012”, informou.
“Em relação à figura do chaveiro, a nomeação de 500 agentes de segurança penitenciária aprovados recentemente em concurso público, dos quais 211 vão atuar no Aníbal Bruno, extinguirá a presença deste personagem dentro do sistema. A nomeação dos novos agentes deverá acontecer ainda este ano, fortalecendo a segurança dentro das unidades prisionais”, disse.
Sobre as denúncias de tortura no Aníbal Bruno, a Secretaria Executiva de Ressocialização disse que “a investigação é realizada através de uma sindicância interna. Em caso de necessidade, também será aberto um inquérito policial”, ressaltou, sem dizer se há casos de torturas registradas pela administração penitenciária.

Festa

O descontrole dos reeducandos do Aníbal Bruno é tamanho que no dia 18 de junho foi realizada uma festa, com direito à presença de MCs, bebida e equipamento de som. A festa foi filmada, e as imagens foram postadas no YouTube. A Secretaria Executiva de Ressocialização abriu sindicância para apurar a entrada do telefone celular ou câmera que filmou a festa.






Inocente paga por um crime que não cometeu

Sebastião era um vaqueiro que levava uma vida pacata no interior de Goiás. Até que tudo mudou de uma hora pra outra: ele foi preso, torturado, acusado de assassinato e condenado a 25 anos de cadeia. Depois de muita luta, Sebastião conseguiu provar a inocência.

Novembro de 1994: um crime bárbaro na cidadezinha de Luziânia, interior de Goiás. E um único suspeito. O vaqueiro Sebastião Soares Vieira estava com a família quando a polícia o prendeu.

“A polícia chegou, falou que tinha um mandado de prisão e que eu estava preso. Não reagi à prisão, falei: tudo bem, vocês estão fazendo o trabalho da polícia, mas vocês estão prendendo um inocente”, lembra o vaqueiro Sebastião Soares Vieira.

Sebastião é acusado de assassinar o ex-cunhado para ficar com o dinheiro dele. A prisão preventiva é decretada. O vaqueiro vai para o xadrez.

“Ele foi acusado e denunciado pela prática do crime de latrocínio e de ocultação de cadáver”, diz o advogado de defesa Cairo de Resende.

“Me interrogaram. Teve tortura de todo tipo. Só a tortura de você ser preso e apanhar toda hora. Foi choque, afogamento, tapa toda hora”, conta o vaqueiro.

Sustentando inocência, Sebastião vai a julgamento. Treze pessoas foram ouvidas. Nenhuma viu o crime. Mesmo assim, a condenação: 25 anos de prisão em regime fechado.

“Às vezes, eu punha a cara na grade e eu via aquele mundo, mas aquilo não era o mundo para mim, realmente, que eu precisava. Eu precisava de mais do que aquilo que eu estava vendo. Eu fui criado solto. Eu fui criado que nem um passarinho”, diz o vaqueiro.

O vaqueiro que trabalhou a vida inteira sem nunca se envolver em crime algum não tinha mais como sustentar a família.

“Muitas vezes ela vinha trazer uma maçã para mim, porque não tinha dinheiro para trazer nada. Só com a comida do presídio a gente não dá conta”, comenta vaqueiro Sebastião Soares Vieira.

“Por eu ser mulher dele eu também não arrumava emprego muito fácil”, lembra a mulher de Sebastião, Irene Leite.

“Às vezes arrumava uma faxina, mas quando sabia que ela era mulher de preso, o pessoal dispensava até da faxina”, completa Sebastião.

O filho, Flávio, que hoje tem 19 anos, era um garoto quando ia ver o pai na cadeia.

“Quando ele começava a chorar: ‘vamos embora, pai’ Como é que eu ia? Aquilo, para mim, a hora que ele saía, eu preferia morrer que ver o meu filho virar as costas para mim daquele jeito”, aponta o vaqueiro.

Ele chegou a escapar uma vez, ficou quatro anos foragido, mas foi recapturado. Oito anos depois da condenação, a reviravolta: um pistoleiro preso por outro assassinato assumiu o crime atribuído a Sebastião.

“O verdadeiro autor deste fato confessou. Não só este fato. Confessou outros”, diz o advogado do vaqueiro.

Sebastião recebe a notícia na penitenciária de Luziânia.

De cada dez presos, três não deveriam estar presos. Essa é uma estimativa do Conselho Nacional de Justiça, para quem 120 mil pessoas estão presas injustamente no Brasil ou porque já cumpriram pena, ou porque aguardam julgamento e a prisão temporária já expirou, ou porque a Justiça errou. Como no caso de Sebastião que, mesmo depois da confissão do verdadeiro assassino, demorou para sair do presídio de Luziânia.

“Do momento da confissão do verdadeiro assassino até a soltura do Sebastião foram em torno de 9 meses. Demorou tanto porque existe a famosa burocracia processual”, comenta o advogado Cairo de Resende.

Novo inquérito, nova perícia, nova reconstituição. Só depois o estado reviu seu erro, cancelando a condenação de Sebastião.

Como é que se mede sofrimento de mãe?

“Foram oito anos e meio nessa vida. O senhor acha que isso é brinquedo?”, diz a mãe de Sebastião, Ana Vieira.

Todos duvidavam. Dona Ana, não. Ela jamais desconfiou do caçula de sete filhos que criou sozinha fazendo roupas no tear que ainda maneja aos 81 anos. Mas como esquecer as visitas na prisão?

“Eu topei chorar demais. Ele veio, me tomou benção, chorando, a polícia lá do lado olhando. Aquilo ali, para mim, Ave Maria. Saí e olhei. Deu vontade de entrar junto”, lembra a mãe de Sebastião, Ana Vieira.

Passou. Ficaram as sequelas.

“Às vezes minha mulher até deixa um trem cair por acidente. Já me dá um nervosismo, parece que eu estou escutando: é o começo de uma rebelião, parece que eu já vejo fogo na minha frente. Se você estiver com uma gravata, eu não consigo falar com você te olhando. Para mim, é aquele promotor que está me acusando de um trem que eu não fiz”, conta Sebastião.

A mesma Justiça que o condenou agora determina que o estado de Goiás indenize o vaqueiro em R$ 1 milhão. A sentença, em primeira instância, saiu no mês passado.

“Para impor aquele efeito pedagógico ao estado, para o estado de Goiás, é uma pequena gorjeta que está se requerendo pagar o sofrimento de vidas humanas”, aponta o advogado Cairo de Resende.

Enquanto o julgamento definitivo não sai, Sebastião continua pobre, desempregado, sem dinheiro nem para o ônibus. Mas com a imensa alegria de, mesmo a pé, ir aonde quiser.

“Agora eu estou conhecendo o que é liberdade. Dentro da prisão eu sonhava com ela”, diz.